CAIXA DOS FÓSFOROS
Segunda-feira, Novembro 14, 2005
  HISTÓRIA DE UM SORRISO

que vergonha: um dia houve, colou-se-me um sorriso ao rosto. no canto dos meus lábios, parecia que cordéis puxavam para cima e assim, não parava de sorrir. logo assim que alguém se aproximava, lá estava ele. triunfante. impedia-me até de fumar: o fumo batia nos dentes e voltava para trás. e mesmo a dicção se tornava áspera: as palavras enrolavam-se e misturavam-se umas nas outras e pareciam só som de soprar. e esticava-me a pele dos lábios e franzia, empurrando as sobrancelhas para cima até ao ridículo. um insulto a grande exposição dos meus dentes e o vermelho das gengivas, e no final, uma risca de olhar deixado pelas pálpebras.

depois estalava o riso. no meio de eu ficar cada vez mais cego estalava o riso. sem congruência ou tino. aparecia como um espasmo. o riso era um soluço inevitável. cá fora, mas ao mesmo tempo também por dentro da cabeça; como cem mulheres histéricas no vão de uma catedral. e as pessoas iam e vinham, e eu...


tive que durante três anos trancar o meu rosto numa dependência escura; um esconso muito propriado, pensava eu, onde pratiquei uma terapia. muito apropriada, pensava eu: mutilava-me nos terminais nervosos que ligavam o rosto e o espírito débil, tudo isto com estranhas agulhas que afinal já lá estavam: nos nervos. e tudo junto formava uma uma máquina de coser paciências com ausências.

assim, ganhei todos os quilómetros. e o poema; esmorecendo o sorriso, difundindo o som da gargalhada no zunido dos transístores; nos fétidos odores de um corpo abandonado. e o meu rosto agora é um morto e eu sou a tumba. o familiar cruvado. a plangência na cara verdadeiramente triste dele. pois o meu rosto não ri nem chora. o meu rosto não é inteligente nem entende.

e o sorriso habita o meu olimpo, juntou-se às vibrantes hostes que escamoteiam o tempo, as minhas felicidades e as outras coisas, coisas sempre maiores do que eu. o sorriso regressa só para morrer-me por dentro. sem apelo. no meio de desconhecidos e de outros que se vão embora; no meio do amor ou de uma chávena de café.





 
Comments:
agora mostra o que vales, vilão! Make my day...!
 
não sejas gabarolas
assinado:CruelaDaVilla
a vilã
 
mas que ganda broa com que o gajo estava pra escrever isto...
anónimo
 
alexandra, alexandra...
 
pois é o menino anda-se a aplicar...
e sempre segui o concelho de "Ustey" e lá fez o seu bloguezito!!
tá bacano, desculpa lá o comment não ser dos melhores, mas vou ter de ler os textos mais devagarinho...

Ps: Parabens á ilustradora!!!

Sigam pa Bingo!!
 
Ora toma lá um sorriso!11
 
É desta que fica? não o mudemos mais... assim está equilibrado; e sem números, conforme pedias.
 
agora sim.não mexo mais.dei uma arrumação geral à casa.numerozinhos plantados por todo o lado e reticencias a separar ilustrações de textos estavam a deixar-me louca. força nas canetas
 
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Este blog é um jogo de fogo cruzado. é uma guerra criativa, um picardius continus imaginatus. o escritor escreve imagens como pode, a ilustradora desenha palavras como vai podendo - com F e sem f. DOIS JOGADORES por aí fora...

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