que vergonha: um dia houve, colou-se-me um sorriso ao rosto. no canto dos meus lábios, parecia que cordéis puxavam para cima e assim, não parava de sorrir. logo assim que alguém se aproximava, lá estava ele. triunfante. impedia-me até de fumar: o fumo batia nos dentes e voltava para trás. e mesmo a dicção se tornava áspera: as palavras enrolavam-se e misturavam-se umas nas outras e pareciam só som de soprar. e esticava-me a pele dos lábios e franzia, empurrando as sobrancelhas para cima até ao ridículo. um insulto a grande exposição dos meus dentes e o vermelho das gengivas, e no final, uma risca de olhar deixado pelas pálpebras.
depois estalava o riso. no meio de eu ficar cada vez mais cego estalava o riso. sem congruência ou tino. aparecia como um espasmo. o riso era um soluço inevitável. cá fora, mas ao mesmo tempo também por dentro da cabeça; como cem mulheres histéricas no vão de uma catedral. e as pessoas iam e vinham, e eu...
assim, ganhei todos os quilómetros. e o poema; esmorecendo o sorriso, difundindo o som da gargalhada no zunido dos transístores; nos fétidos odores de um corpo abandonado. e o meu rosto agora é um morto e eu sou a tumba. o familiar cruvado. a plangência na cara verdadeiramente triste dele. pois o meu rosto não ri nem chora. o meu rosto não é inteligente nem entende.
e o sorriso habita o meu olimpo, juntou-se às vibrantes hostes que escamoteiam o tempo, as minhas felicidades e as outras coisas, coisas sempre maiores do que eu. o sorriso regressa só para morrer-me por dentro. sem apelo. no meio de desconhecidos e de outros que se vão embora; no meio do amor ou de uma chávena de café.